Dr. Rafael Lima Psiquiatria · Psicogeriatria Agendar uma consulta

Apresentação clínica

Depressão em mulheres nem sempre parece tristeza.

É relativamente comum receber mulheres que não chegam dizendo que estão profundamente tristes. Chegam dizendo que estão irritadas o tempo todo, que não têm mais paciência com ninguém, que tudo está incomodando, e que não eram assim.

Eu não estou triste. Ainda assim posso estar deprimida?

Sim. Tristeza é um dos sintomas possíveis da depressão, não uma condição obrigatória para o diagnóstico.

Um quadro depressivo pode se apresentar predominantemente como irritabilidade, perda de interesse, cansaço que não passa com descanso, dificuldade de concentração, alterações do sono e do apetite, e aquela sensação de estar apenas cumprindo obrigações.

Como princípio clínico: pacientes com depressão que apresentam irritabilidade podem experimentar sofrimento psíquico importante e impacto relevante na qualidade de vida. A ausência de choro ou de tristeza declarada não descarta nada.

E é justamente por isso que esses quadros demoram mais para chegar ao consultório. Quem está irritada raramente se descreve como doente. Descreve-se como impaciente, estressada, sem tempo, ou como alguém que mudou e não sabe por quê.

Como isso costuma ser descrito na primeira consulta

  • “Estou irritada o tempo todo.”
  • “Não tenho paciência com ninguém.”
  • “Tudo está me incomodando.”
  • “Parece que não consigo mais lidar com as coisas.”
  • “Quero que todo mundo me deixe em paz.”
  • “Eu não era assim.”

Irritabilidade pode ser depressão?

Pode ser um dos sintomas. Isoladamente, não confirma nada.

Irritabilidade é comum em sobrecarga, privação de sono, dor persistente, condições clínicas e em outros quadros psiquiátricos. O que muda a leitura é o conjunto.

Nem toda irritabilidade significa depressão. Mas quando ela deixa de ser pontual, passa a fazer parte do cotidiano e vem acompanhada de outras mudanças, sua origem merece ser investigada.

O que a avaliação examina em conjunto

Sintomas isolados não fecham diagnóstico. O padrão, sim, orienta a investigação.

  • Irritabilidade e impaciência que se tornaram frequentes.
  • Sensação persistente de sobrecarga.
  • Vontade de se isolar, inclusive de quem você gosta.
  • Sono que não recupera, ou que passou a ser interrompido.
  • Perda de prazer em coisas que antes funcionavam.
  • Cansaço desproporcional ao esforço do dia.
  • Dificuldade de concentração e de sustentar atenção.
  • Culpa e autocrítica excessivas.
  • Alterações no apetite, em qualquer direção.
  • Redução da libido.
  • Sensação de estar apenas “funcionando”.
  • Impacto no casamento e nos relacionamentos.
  • Impacto na maternidade e na relação com os filhos.
  • Impacto no trabalho e na capacidade de decidir.

Por que a depressão pode aparecer diferente nas mulheres?

A apresentação de um quadro depressivo varia com fatores biológicos, momentos do ciclo reprodutivo, contexto de vida e o que cada pessoa reconhece como sintoma.

Períodos como o puerpério e a transição para a menopausa têm particularidades clínicas relevantes e exigem atenção específica na avaliação. Sobrecarga sustentada, trabalho, casa, cuidado de outras pessoas, também altera como o quadro é percebido e nomeado.

Isso não cria uma depressão diferente. Cria a necessidade de olhar com atenção para como o quadro se manifesta, o que costuma ser confundido com temperamento e o que precisa ser investigado antes de qualquer conclusão.

Dr. Rafael Gonçalves Lima, médico psiquiatra.

Dr. Rafael Gonçalves Lima

Médico psiquiatra e psicogeriatra. CRM-MG 55844 · RQE Psiquiatria 35868 · RQE Psicogeriatria 44875. Residência médica em Psiquiatria pelo Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, Rede FHEMIG. Títulos de especialista em Psiquiatria e em Psicogeriatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria. Aperfeiçoamento em Psiquiatria Geriátrica pelo IPq (HC/USP).

Referências

  • Judd LL, Schettler PJ, Coryell W, et al. Overt irritability/anger in unipolar major depressive episodes. JAMA Psychiatry. 2013;70(11):1171-1180.
  • Fava M, Hwang I, Rush AJ, et al. The importance of irritability as a symptom of major depressive disorder. Molecular Psychiatry. 2010;15(8):856-867.
  • Kuehner C. Why is depression more common among women than among men? The Lancet Psychiatry. 2017;4(2):146-158.

Agendamento

Irritabilidade que deixou de ser pontual merece ser investigada.

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